Um cidadão português, que sempre desejou ter uma casa com vista para
o Tejo, descobriu finalmente umas águas-furtadas algures numa das
colinas de Lisboa que cumpria essa condição. No entanto, uma das
assoalhadas não tinha janela.
Falou então com um arquitcto amigo para que ele fizesse o projecto e
o entregasse à câmara de Lisboa, para obter a respectiva autorização
para a obra. O amigo dissuadiu-o logo: que demoraria bastantes meses
ou mesmo anos a obter uma resposta e que, no final, ela seria
negativa. No entanto, acrescentou, ele resolveria o problema.
Assim, numa sexta-feira ao fim da tarde, uma equipa de pedreiros
entrou na referida casa, abriu a janela, colocou os vidros e pintou
a fachada.
O arquitecto tirou então fotos do exterior, onde se via a nova
janela e endereçou um pedido à CML, solicitando que fosse permitido
ao proprietário fechar a dita cuja janela.
Passado alguns meses, a resposta chegou e era avassaladora:
invocando um extenso número de artigos dos mais diversos códigos, os
serviços da câmara davam um rotundo não à pretensão do proprietário
de fechar a dita cuja janela. E assim, o dono da casa não só ganhou
uma janela nova, como ficou com toda a argumentação jurídica para
rebater alguém que, algum dia, se atreva a vir dizer-lhe que tem de
fechar a janela!
(in Expresso, 24 Novembro 2003)