abril 06, 2005

JN - 2005.04.05 - Rem Koolhaas

A lenda da Casa da Música é verdadeira
Arquitecto holandês revela a sua relação com o edifício que vai mudar a face da música em Portugal

José Miguel Gaspar

É possível definir a arquitectura em duas pistas simplistas: de um lado há os edifícios racionais e metódicos, do outro, todos aqueles que foram movidos pelo impulso e pela poesia. Rem Koolhaas estará entre os que arquitectam os primeiros, mas também, e definitivamente, entre os outros.

Rem Koolhaas, arquitecto holandês, considerado um notório desconstrutivista, acredita nas ideias do progresso social e na natureza propagandística da arquitectura. É retórico e autor de edifícios reais. Fundou o OMA.

Nasceu em 1944 e considera-se um escritor, mas em 2000 ganhou um Pritzker, o mais importante prémio de arquitectura mundial. Na mesma frase, fala no singular e no plural - e só ele poderá explicar de que se alimenta essa contaminação. É charmoso, hiper-articulado, impositivo. É o autor da Casa da Música. É incatalogável.


[Jornal de Notícias] Rem Koolhaas é incatalogável?

[Rem Koolhaas] Para o universo da arquitectura talvez eu seja difícil de catalogar, porque tenho muito outros interesses. Originalmente, eu era argumentista. Ainda me considero tanto escritor quanto arquitecto. Nós, na OMA ['Office for Metropolitan Architecture'], já não somos somente arquitectos; criamos outro gabinete, a AMO, que lida com questões políticas, culturais e de identidade contemporânea. Estou constantemente a alargar o espectro daquilo que a arquitectura pode fazer. Acho que isto que faço é muito confuso para o mundo dos arquitectos, mas não é de todo confuso para o resto do mundo. Eles percebem, mas os arquitectos ficam completamente chocados.

Há uma dualidade entre o mundo dos arquitectos e o mundo real?

Como nós não estamos apenas interessados em arquitectura; como temos um interesse quase jornalístico sobre aquilo que acontece no mundo, estamos melhor preparados para captar as expectativas das pessoas ou as potencialidades delas. Em determinado ponto percebi que o mundo precisa da arquitectura sob a forma de uma organização - ou de uma representação -, mas nem sempre o resultado disso é um edifício. Portanto, aquilo que nós estamos a fazer é, por exemplo, oferecer à União Europeia uma nova de se representar que não tenha nada a ver com edifícios, mas simplesmente num nível conceptual.

O facto de ser arquitecto, mas de se considerar escritor, quer dizer que em certo sentido escreve com formas?

Não, não me parece que escreva com formas. Escrevo com palavras. Sou um escritor, literalmente. Os livros são muito importantes para criarmos espaços arquitecturais para nós. Primeiro fizemos um livro e o livro descreveu uma forma particular de fazer arquitectura. Depois, as pessoas começaram a pedir-nos para fazer projectos de arquitectura. Nesse sentido, edito livros para poder actuar enquanto arquitecto.

A Casa da Música tem uma forma e é através dela que comunica. Essa forma pode ser traduzida em palavras?

Não posso realmente traduzir. Primeiro existem sempre as palavras e elas dizem realmente aquilo que queremos dizer sobre o edifício. Em relação à Casa, o que dizemos é isto: não estamos interessados em fazer um edifício público, mas em fazer um edifício para o público. De uma forma subtil, de dia o edifício absorve a cidade e a partir do entardecer projecta o seu interior para a cidade. Há sempre uma fórmula conceptual nas palavras que espoleta o edifício.

Esse desejo de que o edifício absorva a cidade está já a materializar-se?

Acho que criamos as condições ideais para isso. A embaixada holandesa em Berlim, o centro estudantil IIT, em Chicago, a Livraria Pública de Seattle, que foram terminados no último ano. Foi muito importante para mim perceber que cada um dos edifícios começou a ser usado pelas pessoas de uma forma muito natural, sem que fosse preciso explicações da minha parte. Apesar de serem, em termos arquitectónicos, muito ambiciosos, o público não se inibiu de se apropriar deles.

As condições que teve para imaginar, conceber e construir a Casa da Música são consideradas ideais. A forma como a fez foi diferente daquela que aplicou a outros edifícios noutros países?

O que entende por "condições ideais"?

Liberdade total sem constrangimentos criativos, tanto da peça em si como do contexto que a rodeia. Um dos engenheiros portugueses ligados à obra diz mesmo que um edifício assim só seria possível em Portugal ou talvez em Espanha...

Acho que nunca se tem liberdade total. A liberdade foi ganha quando vencemos a competição para a construir a Casa. Isso é que traz liberdade em si. Basicamente, há duas maneiras de conceber um edifício: o cliente chega ao arquitecto e pede-lhe um edifício concreto. Isso significa que é preciso enfrentar o edifício e negociar com o cliente. É simples. A outra maneira é participar num concurso e fazer tudo aquilo que se imagina. Isso significa que júri desse concurso pode dizer duas coisas: ou 'é uma merda'; ou 'podes fazê-lo'. Quando isso acontece, o arquitecto fica numa posição muito diferente, porque significa que o edifício já está feito e aquilo que se pode fazer é apoiá-lo ou rejeitá-lo. Nesse sentido, marcamos uma posição muito forte quando ganhámos o concurso. É bem verdade que um edifício destes só podia acontecer em Portugal ou em Espanha. Isso quer dizer que a qualidade da indústria de construção civil aqui é superior. Mas houve outro pormenor: a situação política aqui é caótica. Continua a ser. Esse contexto muito particular [risos] deu-nos liberdade para manobrar conforme quisemos. Desde que a obra começou, eu já conheci cinco conselhos de administração. Mais ou menos um por ano. O mesmo com ministros da cultura.

Como é que lidou, e como continua a lidar, com isso?

Sim, continua a acontecer...

Já conhece a nova ministra da cultura?

Não. Conhecemos todos os anteriores e comunicamos com eles. Isso faz parte, obviamente, de uma parte fundamental da nossa profissão. Mas nunca nos tinha acontecido numa sequência tão acelerada [risos].

Isso parece diverti-lo...

Bom, isso proporcionou-nos, de facto, um conhecimento bastante profundo daquilo que é a cultura política portuguesa.

Há uma história à volta do projecto que começa a adquirir contornos de lenda. Preciso de saber a sua versão. É verdade que o projecto inicial da Casa da Música foi adaptado de um projecto de uma habitação que estava a desenhar para um casal divorciado?

Quer ouvir a história?

Sim.

É verdade. Mas não era um casal divorciado; era um casal que poderia, eventualmente, divorciar-se. Davam-se mal e disseram-me que, no tempo que levaria do projecto à construção da casa, eles poderiam chegar ao fim já divorciados. Era um projecto muito particular. O homem queria a casa mas impôs três definições negativas: odiava confusões e por isso queria uma casa com muitos arrumos; não estava muito convencido do conceito de 'vida familiar', logo queria um edifício onde todos pudessem ter uma vida independente; e, por último, era um homem que odiava todo o tipo de tecnologia e queria uma casa simples - acho que temia que a casa entrasse em colapso com o 'bug' do ano 2000. Portanto, havia três definições negativas.

Isso limitou-o?

Inicialmente, pensamos que isso seria um problema para a criatividade, mas afinal acabou por ser bastante inspirador. Começamos por achar a forma da casa e depois metemos lá dentro uma rota individual para cada um dos membros da família - e fizemos túneis para que eles se pudessem encontrar em espaços comuns, se assim o quisessem. Depois aconteceu outra coisa: eu fui a África pela primeira vez. E fiquei muito marcado pela inteligência africana, por aquela forma de decidir como reagir no exacto momento em que as coisas acontecem. Isso não é só uma questão de sobrevivência; é também uma forma inteligente de ver as coisas. Voltei para o meu gabinete e decidi, nesse sentido, começar a ser africano. Aí olhei para o meu cliente e ele pareceu-me um bocado complexo. E eu disse-lhe: 'Esqueça!". Senti que tinha que entrar neste concurso quando percebi que a peça que tinha concebido para a casa do meu cliente era a forma ideal para um auditório de música: a forma de uma caixa de sapatos - que é também a forma do auditório da Casa da Música. Esse foi o pormenor que fez espoletar o edifício, que o fez nascer. Por isso, essa lenda é verdadeira.

Essa forma africana de lidar com a realidade parece aplicar-se ao seu gosto pela experimentação. Concorda?

Todos os arquitectos trabalham com o seu gabinete e contra o seu gabinete. Nós, a OMA, tínhamos a reputação de sermos muito metódicos e de estudarmos umas cinco mil variáveis. A determinado ponto comecei a odiar essa reputação - até porque nos atrasava imenso os projectos. Então desafiei o gabinete a fazer as coisas de uma forma completamente diferente. E isso expandiu o nosso repertório, porque agora podemos fazer edifícios muito racionais e muito metódicos e outros que sejam impulsivos e poéticos.

Como é que lida com a arquitectura do português Siza Vieira, que é mediterrânica e modernista, muito precisa e metódica?

Acho que qualquer arquitecto que tenha imaginação já foi influenciado por ele. Qualquer um nessas condições admira-o e excita-se com as suas obras. Ainda me lembro da primeira obra de Siza que vi - acho que foi o projecto das piscinas [de Leça] - e fiquei espantado. Acho que a obra de Siza é o detalhe, e ainda que nós também sejamos detalhe, somo-lo de uma forma completamente diferente. Pessoalmente, quando entro nos seus edifícios, consigo ver realmente que são edifícios portugueses.

Existem certamente diferenças entre arquitectura e arte. Mas os seus edifícios parecem querer esbater essa fronteira.

Haverá sempre esta diferença: na arte cada um de nós está mais ou menos sozinho; na arquitectura nunca se está sozinho porque cada passo tem lugar num contexto. E esse contexto envolve sempre mais ou menos duas mil pessoas, desde o cliente ao projectista, ao construtor, aos operários, até aos gabinetes de cada um. Nesse sentido, a diferença é fundamental. A arte insiste na sua autonomia e a arquitectura, apesar de insistir desde há muito tempo na autonomia também, eu não acredito nela. Acredito que a parte interessante da arquitectura é que pode ser influenciada pela política, pela economia, pela capacidade de fazer coisas.

Em relação à Casa da Música, já sublinhou diversas vezes a sua capacidade de objecto solitário e autónomo em relação ao contexto em que se inscreve. É uma peça de arte isolada?

Pessoalmente não acho que o seja. Depois, a sua solidão é ilusória. O objecto é solitário mas só em aparência. À primeira vista parece independente, mas se virmos bem, depende completamente do contexto. Veja as cores, por exemplo: a cor do pátio é que dá ênfase à luminosidade do edifício.

Foi por essa razão que escolheu o confronto entre tons dourados e cinzento prateado? Isso acontece no exterior do edifício e no auditório, que é o seu coração.

Escolhi-os porque ambos transportam luz. E porque quis jogar com o confronto entre a sombra e a luz. Se reparar, aqui, no topo do 'foyer' onde nos encontramos é bastante escuro, mas lá em baixo, quando se entra, a luz está em todo o lado. Há partes em que é preciso que a luz penetre até ao fundo do edifício e noutras não.

Tem alguma palavra que defina a Casa da Música?

In-ca-ta-lo-gá-vel. É uma palavra.

É capaz de explicar por que razão a Casa da Música pode provocar comoção a quem a visita?

Bom, eu sou responsável por isso. Mas não sou responsável por explicar o que é que isso quer dizer [risos]. Acho que isso é uma das coisas terríveis do estado actual da arquitectura: dantes fazíamos coisas e ficávamos emocionados. Agora fazemos as coisas e ainda temos que as explicar. Temos que explicar às pessoas aquilo que devem sentir e assegurar-lhes que aquilo que elas estão a sentir é correcto. Eu não quero ter nada a ver com isso.

Publicado por cvale em abril 6, 2005 12:05 PM
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